Ler numa língua estrangeira: como tornar isso um prazer

Ler numa língua estrangeira é frustrante ao início. Não tem de continuar assim. Formas práticas de o transformar em algo que te apeteça fazer.

O problema da primeira página

Abres um livro na língua que estás a aprender. Página um. Estás entusiasmado, determinado, pronto.

Três parágrafos depois, já procuraste uma dúzia de palavras, perdeste o fio da história duas vezes e não tens bem a certeza se a personagem principal é uma pessoa ou um barco. O entusiasmo foi-se. No lugar dele: frustração, dúvidas sobre ti próprio e uma vontade enorme de ir antes ver Netflix.

Se já tentaste ler noutra língua, talvez conheças a sensação. A questão é o que fazer quanto a isso.

Porque ler numa língua estrangeira pode ser um prazer. Não um prazer «daqueles que formam o carácter, como comer os legumes». Um prazer a sério. Daqueles em que perdes a noção do tempo e continuas a ler muito depois da hora de deitar. Mas, para lá chegares, é preciso perceber porque é que custa tanto e fazer algumas escolhas deliberadas sobre a forma como lês.

Porque é que parece tão diferente

Na tua língua materna, ler é invisível. O teu cérebro processa as palavras de forma tão automática que nem dás pela mecânica. Vês texto e o significado aparece. É como se as palavras fossem transparentes, como se olhasses através delas diretamente para as ideias.

Numa segunda língua, as palavras são opacas. Cada uma exige um esforço consciente. Fazes tudo o que fazes quando lês na tua própria língua, e, além disso, tens de te lembrar de palavras que ainda não conheces bem e de decifrar uma gramática que continua sem ser automática.

É como a diferença entre andar e andar no gelo. No fundo, a mesma atividade, com muito mais esforço.

Esse esforço extra não é sinal de que és mau na língua. É o que se sente ao aprender a ler nela, e vai diminuindo com a prática. Mas sabê-lo não torna a página um menos frustrante, por isso aqui fica o que ajuda.

A armadilha de procurar palavras

Procurar palavras não é o problema. O problema é o que cada consulta te custa quando te tira do livro.

É isto que acontece com um dicionário em papel ou uma aplicação de tradução à parte. Encontras uma palavra desconhecida. Paras de ler. Abres um dicionário ou uma aplicação de tradução. Encontras o significado. Voltas à frase. Mas já te esqueceste da primeira metade da frase, por isso voltas a lê-la. Avanças para a frase seguinte e dás com outra palavra desconhecida. Parar. Procurar. Esquecer. Reler. E outra vez.

Ao fim de trinta minutos disto, «leste» meia página e não retiveste quase nada. A história está aos bocados. A experiência foi penosa. O livro volta para a estante.

A investigação sobre cobertura lexical mostra porquê. Num estudo de 2000, Hu e Nation puseram aprendentes a ler um texto de ficção com diferentes proporções de palavras desconhecidas. Com 90%, ou seja, uma palavra desconhecida em cada dez, só 4 em 16 leitores o compreenderam adequadamente, e a partir dos resultados estimaram que os leitores precisam de conhecer cerca de 98% das palavras (uma palavra desconhecida em cada 50) para compreender um texto sem ajuda. Isso é ler sozinho. Com uma tradução à distância de um clique, uma página a 90% é exequível, e encontras nela muitas palavras novas. A investigação sobre glosas, traduções de palavras desconhecidas colocadas mesmo ao lado do texto, aponta no mesmo sentido: uma meta-análise de 11 estudos de Lee Abraham (2008) concluiu que as glosas em computador melhoravam a compreensão da leitura, e uma meta-análise de 42 estudos de Yanagisawa, Webb e Uchihara (2020) concluiu que quem lia com glosas aprendia mais palavras desconhecidas do que quem lia sem elas.

A conclusão prática: se cada consulta te tira do livro, uma página com uma palavra desconhecida em quase todas as frases é demasiado difícil. Se uma consulta demora um segundo e ficas na frase, essa mesma página pode ser exequível.

O que fazer em vez disso

Não precisas de procurar todas as palavras. Se uma palavra não te impede de perceber a frase, podes continuar. Se for importante, vai voltar a aparecer. Mas, se quiseres saber o que uma palavra significa, procura-a. Quando a tradução aparece ali mesmo na página, uma consulta custa-te muito pouco.

Quando procurares uma palavra, fá-lo depressa e segue em frente. O objetivo é manter o ritmo da leitura. Uma consulta rápida que mostra o significado sem saíres da página é algo fundamentalmente diferente de mudar de aplicação, escrever uma palavra, percorrer definições e depois tentar encontrar outra vez o sítio onde ias. A interrupção pesa tanto como a própria consulta.

Guarda a tradução das palavras que não param de voltar. Uma palavra que viste três vezes em duas páginas é claramente importante neste texto. Guarda a tradução dela e não terás de a procurar outra vez da próxima vez que a vires.

Escolhe a dificuldade certa

Com material demasiado difícil, é fácil acabar frustrado. Parece óbvio, mas é surpreendentemente fácil enganares-te na avaliação.

A dificuldade certa é material em que percebes o suficiente para acompanhar a história, mas em que encontras palavras e estruturas novas suficientes para sentires um pequeno esforço. Não vais em piloto automático. Não te afogas. Nadas em água que te tapa um pouco, mas com o fundo perto o suficiente para lhe tocares se precisares.

Sinais de que o material é o certo

  • Consegues acompanhar a história, procurando palavras quando queres
  • As palavras desconhecidas não te impedem de a acompanhar
  • Queres saber o que acontece a seguir
  • Às vezes esqueces-te de que estás a ler numa língua estrangeira

Sinais de que é demasiado difícil

  • Não consegues acompanhar o enredo, mesmo procurando palavras
  • Mesmo com traduções, paras tantas vezes que perdes a história
  • Sentes-te frustrado em vez de desafiado
  • Tens pavor de lhe voltar a pegar

Se um livro é demasiado difícil, não há vergonha nenhuma em pô-lo de lado. Ele vai lá estar quando estiveres pronto. Entretanto, lê algo mais fácil que vás acabar em vez de algo mais difícil que vás abandonar.

Lê o que lerias de qualquer maneira

Esta dica é simples e subestimada: lê coisas que te interessam.

Quem aprende línguas escolhe muitas vezes os livros pelo que parece «apropriado» para aprender. Clássicos. Literatura. Livros «sérios» que lhes vão ensinar a língua «a sério». E depois perguntam-se porque é que ler parece um trabalho de casa.

Se lês policiais em português, lê policiais em espanhol. Se adoras cozinhar, procura um blogue de culinária em francês. Se gostas de ficção científica, há ficção científica em todas as grandes línguas. O conteúdo importa muito menos do que o teu envolvimento com ele.

Prefiro ler um livro um pouco fácil que me faça virar páginas do que um livro com a dificuldade «perfeita» que me aborreça. Sem interesse, deixas de ler. E um leitor que deixa de ler não aprende nada de nada.

Lê duas vezes

Reler é fácil de ignorar.

Ler uma coisa pela segunda vez parece batota. Não é. É uma boa forma de tirares mais partido de um texto que já trabalhaste.

Na primeira leitura, o teu cérebro faz tudo ao mesmo tempo: processar vocabulário, analisar gramática, seguir o enredo, gerir a carga cognitiva. É avassalador, e muita coisa escapa.

Na segunda leitura, já não tens de te preocupar com o enredo. Sabes o que acontece. O teu cérebro fica livre para se concentrar na língua. Reparas em palavras que te tinham escapado. Os padrões gramaticais encaixam. Expressões que eram opacas tornam-se transparentes. E, como a carga cognitiva é menor, a experiência é mais agradável.

Reler um capítulo de que gostaste é especialmente valioso. Já sabes que é bom. Custa pouco começar. E o reforço da língua é grande, porque voltas a encontrar o mesmo vocabulário num contexto que já percebes, e voltar a encontrar uma palavra é o que a ajuda a fixar-se.

A velocidade é sobrevalorizada (ao início)

Quem começa a ler numa língua estrangeira fixa-se muitas vezes na lentidão com que lê. Uma página que demora um minuto na língua materna pode demorar dez na língua que está a aprender. Parece errado, como se houvesse algo avariado.

Não há nada avariado. És lento porque o processo ainda não é automático. É só isso. A velocidade vem com a prática, e a prática exige ler, o que exige não desistires por estares frustrado com a velocidade.

Aqui fica uma forma mais útil de pensar nisto: a tua velocidade de leitura aumenta com leitura regular. Não porque aprendas algum truque, mas porque as palavras e estruturas que vês mais vezes se tornam familiares. As palavras frequentes tornam-se automáticas. Os padrões gramaticais comuns deixam de exigir análise consciente. Há menos palavras a fazer-te parar.

Não precisas de exercícios de velocidade. Só precisas de continuar a ler. Quanto mais lês, mais rápido ficas.

Aposta no hábito, não na sessão

Acho que o que mais pesa para que ler numa língua estrangeira se torne um prazer é fazê-lo com regularidade. Não a duração de cada sessão. Não a dificuldade do material. Apenas a constância.

Num estudo de 2010, Phillippa Lally e colegas pediram a 96 pessoas que fizessem uma pequena coisa todos os dias no mesmo contexto, como comer uma peça de fruta depois do pequeno-almoço, e acompanharam até que ponto se tornava automática. Em média, a ação deixou de ganhar automatismo ao fim de cerca de 66 dias, com um intervalo de 18 a 254 dias. O estudo era sobre comer, beber e fazer exercício, não sobre ler, mas acho que a ideia se aplica: a mesma pequena ação, depois do mesmo sinal, todos os dias. E os hábitos importam porque te poupam a ter de decidir. Quando ler passa a ser algo que simplesmente fazes, depois do jantar, antes de dormir ou no autocarro, deixas de gastar força de vontade a começar e passas a gastá-la a ler.

Algumas abordagens práticas:

Define um mínimo tão baixo que pareça ridículo. Uma página. Dois minutos. Três parágrafos. Se fizeres mais, ótimo. Se não, mesmo assim leste hoje.

Associa-o a algo que já fazes. Ler enquanto tomas o café de manhã. Ler antes de dormir. Ler a caminho do trabalho. Foi assim que as pessoas do estudo de Lally fizeram: cada uma ligou o novo comportamento a algo que já acontecia todos os dias, como o pequeno-almoço.

Acompanha-o visualmente. Um calendário simples em que marcas cada dia em que leste torna fácil ver como vais. E, se falhares um dia, não é nenhum desastre: no estudo de Lally, falhar uma oportunidade não afetou de forma relevante a formação do hábito.

Quando ler começa a parecer fácil

Há um momento na leitura numa língua estrangeira que chega com prática suficiente. Não é dramático. Podes nem reparar que está a acontecer.

Uma noite, talvez percebas que já estás a ler há vinte minutos sem procurar nada. Não porque tenhas percebido todas as palavras; não percebeste. Mas porque estavas a acompanhar a história e as palavras desconhecidas já não te travavam. O teu cérebro estava a preencher as lacunas a partir do contexto, e mal deste por isso.

É este o momento em que ler deixa de ser um exercício e passa a ser um prazer. Não acontece numa data marcada. Acontece quando já se acumulou vocabulário suficiente, se absorveu gramática suficiente e se leram páginas suficientes para a balança pender do esforço para a fluidez.

Não o podes forçar. Não há atalhos. Mas podes torná-lo muito mais provável: lendo com regularidade, na dificuldade certa, em material de que gostas.

Cada página que lês antes desse momento aproxima-te dele. E cada página que lês depois dele é a recompensa.

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