Como aprender a ler em um idioma com outro alfabeto

Aprender russo, grego, hebraico ou coreano começa por um alfabeto novo. Quantas letras cada um tem, quais confundem mais e como aprendê-las.

Você decide aprender russo. Ou grego, ou coreano, ou hebraico. Encontra um livro infantil, uma placa ou o verso de uma embalagem de comida e não consegue ler nada. E não é só porque você ainda não conhece as palavras. Você não consegue nem saber onde termina uma letra e começa a próxima.

O problema é o alfabeto, e ele é uma tarefa bem menor do que parece, além de ser a única parte de aprender um idioma que tem fim. Um alfabeto novo é uma lista curta e fechada. O grego tem 24 letras. O russo tem 33. O hangul, do coreano, tem 24 letras básicas. Você já lê um alfabeto sem pensar, e aprender um segundo dá muito menos trabalho do que aprender o idioma que o usa. Quando as letras ficam familiares, começa o trabalho normal de aprender o idioma.

Quantas letras você precisa aprender?

Menos do que você imagina, e muitas vezes menos letras do que o alfabeto que você já usa:

Algumas dessas letras nem são novas. Segundo o padrão Unicode, tanto o alfabeto latino quanto o cirílico derivam do grego, então várias letras gregas e cirílicas se parecem com letras que você conhece. O hangul foi inventado de forma planejada. No livro de 1446 que o apresentou, o rei Sejong explicou que as pessoas comuns não conseguiam escrever o que pensavam com caracteres chineses e que, por isso, tinha criado 28 letras novas, que elas pudessem aprender com facilidade e usar todos os dias.

Quais letras causam mais problemas?

As que parecem familiares. Uma forma que você nunca viu é claramente nova, então você presta atenção nela. Com uma forma que você conhece, é diferente: você vai continuar lendo do jeito antigo. No cirílico, Р tem som de r, В é um v, Н é um n e С é um s, e você vai continuar lendo essas letras como P, B, H e C até praticá-las especificamente. Aprenda essas poucas primeiro.

Um alfabeto novo é mais difícil de ler do que o inglês?

Muitas vezes é mais fácil, depois que você conhece as letras, porque a ortografia é mais regular.

Os pesquisadores descrevem os sistemas de escrita pela profundidade ortográfica. Em um sistema de escrita raso, a grafia de uma palavra diz como pronunciá-la. Em um profundo, muitas vezes você já precisa conhecer a palavra. Em uma comparação entre hebraico, inglês e servo-croata, Frost, Katz e Bentin concluíram que, nas ortografias rasas, os leitores tiram o som da palavra diretamente da escrita, enquanto nas profundas eles o tiram das palavras que já conhecem.

O inglês fica no extremo profundo. Pense em “cough”, “though”, “through” e “thought”: quatro palavras com “ough”, e nenhuma se pronuncia como as outras. Quando Seymour, Aro e Erskine compararam crianças aprendendo a ler em inglês e em outros 12 sistemas de escrita europeus, a maioria das crianças conseguia ler palavras simples com precisão e fluência antes do fim do primeiro ano escolar. O inglês foi a exceção mais clara: a leitura se desenvolveu mais de duas vezes mais devagar do que nos sistemas de escrita rasos.

O grego, o coreano e o russo são todos mais regulares do que o inglês. O grego é regular o bastante para que cada letra ou par de letras de uma palavra possa ser associado, em ordem, a um som. O hangul é lido com uma correspondência de um para um entre letras e sons. O russo é o menos organizado dos três. Kerek e Niemi descrevem a ortografia russa como regular e previsível, mas com um grande número de exceções. O acento tônico pode cair em qualquer sílaba e só é marcado nos dicionários e nos livros para crianças e para estudantes do idioma. As vogais átonas mudam, então сова (coruja) se pronuncia “savá”, e a grafia não mostra isso. Mesmo assim, depois que você conhece as letras, consegue pronunciar uma palavra russa e geralmente chegar perto da pronúncia certa, o que é mais do que a ortografia do inglês oferece.

E se a escrita deixar as vogais de fora?

O hebraico funciona de outro jeito. Ele é um abjad, um sistema de escrita que registra as consoantes. Na descrição de Wasserstein e Lipka, as vogais podem ser indicadas com pequenos pontos em volta das letras, mas o texto com pontos é usado principalmente em livros para crianças pequenas, na poesia e em textos sagrados. O hebraico do dia a dia deixa os pontos de fora, e quatro letras têm dupla função, como consoantes e como vogais.

Isso muda o que o alfabeto faz por você. O hebraico com pontos chega perto de uma letra, um som, e é a versão com que as crianças aprendem a ler. O hebraico sem pontos é o mais profundo dos três sistemas de escrita na comparação de Frost, Katz e Bentin, e Share e Bar-On o descrevem como cheio de homógrafos, palavras que se escrevem igual, mas se leem de formas diferentes. Sem os pontos, muitas vezes você precisa conhecer a palavra para conseguir lê-la. Por isso, no hebraico, aprender palavras cedo importa ainda mais do que no grego ou no russo. Comece por textos com pontos e saiba que passar para textos sem pontos é uma etapa à parte.

Como aprender as letras?

Aprenda cada letra como um som, não como um desenho. Ler é transformar formas em sons, então fale cada letra em voz alta enquanto aprende.

Escreva as letras à mão. Em um estudo de Longcamp e colegas, adultos aprenderam caracteres novos escrevendo com papel e caneta ou digitando. Quem tinha escrito os caracteres à mão distinguia melhor cada um da sua imagem espelhada, e a diferença se manteve por várias semanas.

Aprenda poucas letras por vez e volte a elas em outros dias. Uma grande revisão de estudos sobre prática espaçada, feita por Cepeda e colegas, concluiu que distribuir o estudo em sessões separadas faz a pessoa lembrar mais do que o mesmo estudo feito em um bloco só.

E, no russo, trate a letra cursiva como uma tarefa separada. Várias letras russas escritas à mão são bem diferentes da forma impressa: um т manuscrito parece um m, e um д manuscrito parece um g.

Por que ler letra por letra em uma escrita nova cansa tanto?

Porque, no começo, ler as letras ocupa toda a sua atenção. Kerek e Niemi observam que as crianças que estão começando a ler em russo têm os recursos mentais totalmente ocupados em decifrar as letras uma a uma, e é por isso que têm dificuldade para descobrir onde cai o acento. Talvez você conheça a sensação: você chega ao fim de uma linha depois de pronunciar todas as palavras, sem ter entendido nenhuma. É, em parte, o mesmo motivo por que ler em qualquer idioma novo cansa no começo.

Fica mais fácil com a prática, e a prática que mais ajuda é ler muito texto bem fácil, com palavras curtas e quase todas conhecidas. Assim você vê as letras várias vezes sem ter que, ao mesmo tempo, decifrar uma frase cheia de vocabulário novo.

Conhecer o alfabeto quer dizer que você consegue ler o idioma?

Não. Quer dizer que você consegue pronunciar o que está escrito. A Simple View of Reading (visão simples da leitura), proposta por Gough e Tunmer em 1986, descreve a leitura como o produto de duas habilidades separadas: a decodificação, que é transformar a palavra escrita em uma palavra falada, e a compreensão da linguagem, que é entender essa palavra depois de decodificá-la. Você precisa das duas. Dá para decodificar “anfractuosidade” sem ter ideia do que significa.

Conhecer o alfabeto é a metade que corresponde à decodificação. Você consegue pronunciar corretamente uma frase em russo e não entender nada. Então, quando as letras ficam familiares, começa o trabalho de sempre: palavras, depois gramática, depois mais palavras. A diferença é que o alfabeto se aprende uma vez só, logo no começo. Depois disso, o seu tempo vai para o idioma em si.

Por onde começar?

Se você está olhando para uma escrita nova e não sabe por onde começar, esta é uma ordem para seguir:

  1. Aprenda as letras como sons, algumas por dia, em voz alta. Escreva as letras à mão.
  2. Aprenda primeiro as letras parecidas, as que lembram letras que você conhece, mas representam outro som.
  3. Aprenda suas primeiras palavras assim que conseguir ler as letras, para que, ao pronunciar uma palavra, você chegue a um significado e não só a um som. As palavras mais comuns vêm primeiro, porque aparecem em todas as páginas.
  4. Leia bem abaixo do seu nível no começo: rótulos, legendas, um livro infantil, um primeiro livro que você consiga terminar. O objetivo é ver as letras muitas vezes, não se desafiar.
  5. Não procure todas as palavras no dicionário. Você não precisa entender tudo para continuar lendo e melhorando.

No Simply Fluent, um curso gratuito ensina as letras do hebraico, do russo, do grego, do ucraniano e do coreano, algumas por vez, e quem fala inglês e está aprendendo russo ou hebraico também pode usar flashcards das 100 palavras mais comuns. É mais ou menos a ordem acima. Mas a ordem importa mais do que a ferramenta. Qualquer método que leve você das letras às palavras rápido, e depois coloque você para ler, vai funcionar.

Escolha cinco letras hoje e fale essas letras em voz alta até conseguir lê-las sem parar para pensar. Mais cinco amanhã. Você vai conseguir pronunciar palavras muito antes de entendê-las, e essa é a ordem certa.

Perguntas comuns

Preciso aprender o alfabeto antes de aprender o idioma?

Se o idioma tem um alfabeto próprio, sim, e vale a pena fazer isso primeiro em vez de deixar para depois. As letras são uma lista curta e fechada, que você aprende uma vez só. Enquanto não as conhece, você não consegue ler uma única palavra, então todo o resto do idioma depende delas.

Quantas letras tem o alfabeto russo?

Trinta e três: dez letras vogais, vinte e uma letras consoantes e dois sinais, o sinal brando ь e o sinal duro ъ, que não têm som próprio. Eles mostram se a consoante que vem antes é pronunciada branda ou dura.

O alfabeto cirílico é difícil de aprender?

Menos do que parece. As letras que dão problema são as que se parecem com letras latinas, mas representam outro som, como Р (som de r), В (um v), Н (um n) e С (um s). Aprenda essas com atenção especial. A ortografia russa também é mais regular que a do inglês, embora não seja perfeita: o acento tônico não é marcado nos textos comuns, e algumas vogais átonas são pronunciadas de um jeito diferente de como se escrevem.

Dá para aprender a ler coreano em um dia?

Não encontrei nenhum estudo que meça isso. O que está documentado é que o hangul tem 14 letras consoantes básicas e 10 letras vogais básicas, tem correspondência de um para um entre letras e sons e foi criado no século XV para que as pessoas comuns pudessem aprendê-lo com facilidade. Reconhecer as letras e ler com facilidade são coisas diferentes, e a segunda vem de ler muito.

O hebraico é escrito sem vogais?

Na maior parte, sim. O hebraico do dia a dia escreve as consoantes, além de quatro letras que também podem representar vogais. Os sinais vocálicos completos, pequenos pontos em volta das letras, são usados em textos para crianças pequenas, na poesia e em textos religiosos. As crianças aprendem a ler com os pontos, e a versão com pontos é a mais fácil para começar.

Quantas letras tem o alfabeto grego?

Vinte e quatro, de alfa a ômega: sete vogais e dezessete consoantes. Várias delas você já conhece da matemática e das ciências.

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